A primeira violação de direitos humanos da Ditadura Militar Brasileira, com repercussão internacional
Os nove chineses vítimas da ditadura
Em 13 de julho de 2014, Danillo Santos foi homenageado em Beijing, China. Em cerimônia com discurso do presidente chinês, Xi Jinping, o advogado brasileiro viu serem exibidas imagens de seu acervo pessoal e dos nove chineses, privados de suas liberdades. Estes foram os protagonistas do livro dos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo, intitulado “O caso dos nove chineses”.
Danillo Santos foi figura fundamental no convencimento do criminalista Heráclito Sobral Pinto, conhecido por sua dedicação à defesa dos direitos dos presos políticos, para defender os nove chineses.
Imagem: Danillo Santos durante audiência da Comissão Nacional da Verdade sobre o caso dos nove chineses Foto: Reprodução / Comissão Nacional da Verdade

Além de visitar regularmente os prisioneiros chineses, a exemplo de Danillo Santos, Sobral Pinto os defendeu no tribunal sem cobrar honorários. Danillo Santos também prestou auxílio às famílias dos prisioneiros chineses. Quando os chineses foram expulsos do Brasil, Danillo e Sobral Pinto os acompanhou ao aeroporto do Galeão e eles foram as últimas pessoas a se despedirem deles, que, segundo relatos, o abraçaram com lágrimas nos olhos. Na China, os nove homens foram recebidos como heróis.
Em atos de dedicação notáveis, Danillo Santos e Sobral Pinto demonstraram um compromisso exemplar na defesa dos prisioneiros chineses, no Brasil. Além de suas visitas regulares às prisões, Danillo Santos conseguiu que Sobral Pinto assumisse a causa desses prisioneiros nos tribunais, sem solicitar qualquer remuneração pelos seus serviços.
Não se limitando à atuação nos tribunais, Danillo Santos também estendeu sua ajuda às famílias dos detidos, proporcionando-lhes suporte e solidariedade em momentos difíceis.
O ápice dessa extraordinária jornada humanitária ocorreu quando os prisioneiros chineses foram deportados do Brasil. Tanto Danillo Santos quanto Sobral Pinto estiveram ao lado deles no Aeroporto Internacional do Galeão. Testemunhas afirmam que ambos foram as últimas pessoas a se despedirem dos deportados, e comoventes abraços foram trocados entre eles, muitas vezes acompanhados de lágrimas nos olhos.
Na China, esses nove homens foram recebidos como verdadeiros heróis, demonstrando o impacto significativo das ações altruístas de Danillo Santos e Sobral Pinto em favor dos prisioneiros chineses.
Somente em 2014, 50 anos após o episódio, foi publicado o primeiro livro dedicado a esse caso intrigante. Escrito pelos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo, O Caso dos Nove Chineses reconstrói essa história com base em documentos, muitos deles inéditos, artigos de jornal, entrevistas e depoimentos.
Prefácio do livro
Na madrugada de 3 de abril de 1964, três dias após o golpe militar, policiais do Departamento de Ordem Política e Social invadiam, sem ordem judicial, um apartamento no bairro do Flamengo, no Rio, e capturavam um grupo de estrangeiros. As torturas começaram ali mesmo. Horas depois, os homens da polícia política entravam em outro prédio, no Catete, e detinham mais pessoas. No fim do dia, nove chineses estavam presos, identificados como agentes internacionais instalados no Brasil para disseminar a revolução comunista. Mas a verdade é que viviam legalmente no país. Dois eram jornalistas, quatro tinham vindo montar uma feira de produtos da China e os demais vieram comprar algodão. Tornaram-se vítimas da paranoia anticomunista da época, alimentada pelo governador Carlos Lacerda. Foram condenados a dez anos de prisão por subversão e, após mais de um ano detidos, acabaram expulsos do país.
O Brasil nunca pediu desculpas nem devolveu o dinheiro apreendido com o grupo – um valor que hoje ultrapassa R$ 800 mil. Em seu país, eles se tornaram heróis nacionais e ficaram conhecidos como “Nove Estrelas” ou “Nove Corações Vermelhos voltados para a Pátria”. Brasil e China estabeleceram relações diplomáticas dez anos depois, em 1974, mas o incidente ficou esquecido em arquivos secretos. Em O caso dos nove chineses, os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo trazem à tona agora, cinquenta anos depois, história do primeiro escândalo internacional de violação dos direitos humanos da ditadura militar brasileira. Com base em documentos inéditos, entrevistas exclusivas, depoimento de um dos sobreviventes, e ampla pesquisa, os autores reconstituem um episódio marcante da nossa história recente.


Medidas oficiais
Passaram-se dez anos até que as relações diplomáticas fossem retomadas. No dia 16 de agosto de 1974, o jornal anunciava em manchete: “Brasil e China devem trocar embaixadores ainda este ano”. No dia seguinte, O Diário publica uma reportagem sobre o novo acordo comercial assinado entre os países. O Brasil poderia exportar minério de ferro, soja, algodão e celulose, enquanto o país asiático venderia minerais não-ferrosos, artesanato, petróleo e carvão. Neste dia, o então presidente da República, o general Ernesto Geisel, ganhou dois vasos de porcelana da missão chinesa. A nova fase de boas relações com a China resultou no rompimento político com Formosa, porém sem haver interferências nos negócios privados.
Em 1997, o Sr. Ju Qingdong, uma das 9 vítimas, tentou visitar o Brasil como turista e teve o visto negado, uma vez que o decreto presidencial que o impedia de entrar no país permanecia válido.
Foi somente em dezembro de 2014 que o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, anulou o decreto e também as sentenças. Arquivado em 1965, o processo contra os chineses permaneceu no esquecimento até o ano passado, quando João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, solicitou ao STF sua anulação.
Em 2015, a então presidente da república Dilma Rousseff, como forma de reparação pelo dado causado aos chineses, os admitiu, no grau de oficial, na Ordem do Cruzeiro do Sul, gesto muito apreciado pela China.
Dentre os nove chineses, cinco ainda eram vivos em 2014, quando a sociedade e o governo brasileiro começaram a se mexer para colocar um ponto final neste triste episódio.
Quem eram os nove chineses vítimas da ditadura?
Ju Qingdong – Jornalista da agência de notícias Xinhua;
Wang Weizheng – Jornalista da agência de notícias Xinhua;
Su Ziping – Organizador da exposição;
Hou Fazeng – Organizador da exposição;
Wang Zhi kaj – Organizador da exposição;
Zhang Baosheng – Organizador da exposição;
Wang Yaoting – vice-diretor da Companhia Chinesa de Importação e Exportação de Têxteis;
Ma Yaozeng – classificador de algodão; e
Song Gueibao, intérprete.
Fonte: Arquivo Nacional >> Memórias Reveladas
Arquivo NacionalAudiência Pública da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ)
Transmissão ao vivo da Audiência Pública da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ) sobre a prisão, em 1964, de nove funcionários do governo chinês, que faziam parte da “Missão Comercial Chinesa”. O grupo foi falsamente acusado de espionagem e expulso do Brasil. Data: 26/09/2014
Leia a transcrição do depoimento do chinês Ju Quingdong, jornalista da agência Xinhua preso, processado e expulso do país no “caso dos 9 chineses”:










